Contos de Bob – Eu e a Besta

E lá estava eu. Eu…. e a máquina…. eu e a máquina. Ela sempre de mau humor, desrespeitosa, impaciente como um leão faminto esperando a hora do lanche. Parece aquele cachorro que você achou na rua, você o alimenta, ele vigia sua casa, mas é só. Respeito? Somos dois machos alfa e ninguém quer ser liderado. Dois querem ser lideres.

O V12 carburado repousa imponentemente atrás do banco do motorista. Giro a chave e dou a partida. O Mostro urra mais ignorante que uma onça parida e molhada. Empunho as mãos ao voltante, sem regulagem de altura e profundidade. Direção hidráulica os cambal. Bolsa inflável? onde? Apenas um bom e velho 3 raios. Aço e couro. Era disso que os homens eram feitos…. esqueletos fundidos em aço recobertos de puro couro costurado a mão, e boa.

Corro os olhos pelo painel. No alcance da visão apenas o necessário; um Conta-Giros pra me dizer a quantas voltas por segundo as labaredas do inferno giram às minhas costas e um velocímetro pra me dizer quantos metros de asfalto a besta engole em cada segundo. Nada dessas penteadeiras de puta enfeitadas dos carros de hoje.

Do meu lado direito a alavanca do cambio seco de 4 marchas,  curta. O pedal da embreagem, tem curso curto. Os engates, são curtos. A vida, é curta. Piso no pedal e engato a primeira marcha. Um barulho metálico e seco anuncia que e marcha encontrou seu engate. Um v12 carburado não aceita novatos… não… ele quer o velho estradeiro, ele gosta de um desafio…… ele gosta de humilhar velhos conhecidos, dar o bote antes da hora, brincar com seus reflexos.

Tento dosar o acelerador enquanto solto a embreagem. O monstro ruge como um leão, cravando suas unhas no asfalto. Aquele meio segundo que o tempo para, o arrepio gelado na espinha ainda está lá, solenemente o ignoro e piso no acelerador assim como um bárbaro insano pisaria na boca de kerberos , o cão três cabeças que guarda os portões do inferno, pra ver do que ele é capaz.

Um berro apocalíptico cresce em minhas orelhas, vindo por minhas costas…. o demônio estava acordado, e ele estava sedento. Um demônio v12 carburado não aceita meninos… não…. ele te joga pra frente enquanto sua cabeça se funde ao banco assim como um touro acuado te surpreende com um coice no meio nas costas…. Meninos dirigem Camaros coloridos movidos a pôneis amansados com penduricalhos eletrônicos, homens cavalgam demônios travestidos de carros se remexendo no asfalto como touros endiabrados loucos para te jogar pra fora.

A esta altura o velocímetro já marcava 80Km/h, aperto a embreagem e puxo o cambio pra posição de segunda marcha, o anuncio metálico avisa ao demônio que o trem de força encontrou seu engate novamente. Ele não toma conhecimento, cospe fogo pelas ventas, urra nervoso enquanto me joga de lado pra esquerda. Volante pra direta uma aliviada seguida por outro pisão no rabo de kerberos. Coice pra direita , voltante pra esquerda. Continuamos nesse balé por mais 2 insanos segundos até que o demonio não quis mais saber de dança e engoliu o asfalto pra frente urrando como um urso.

O velocímetro a 120 me avisa que é hora de engatar a 3 marcha. Curta e seca faço ela entrar no lugar. O ponteiro continua subindo com força. Kerberos uiva com suas três cabeças mostrando os dentes, mostrando a que veio. Sigo confiante segurando as redeas da besta, como um velho cowboy esporando um cavalo selvagem, jamais amansado. Das mãos desgrudavam um suor gelado, o suor do velho cowboy, o último estradeiro, saindo para seu passeio com seu cão de rua. Cada passeio era assim, o demonio e o cowboy, o eterno jogo.

O medidor de rotações  infernais por segundo continua subindo com força, 9mil cuspidas por minuto e pedindo mais, MAIS, MAIS. Desafiando ao velho cowboy. _ Tome, você pediu, puxe mais, puxe mais, vamos ver quem aguenta mais!!! MAIISSSS!

Se lucifer tivesse um carro, seria um v12. A quarta marcha canta metalicamente e a besta continua urrando alucinadamente num canto de vitória ao velho estradeiro que parece perdido em sua ousadia. O monstro tem tanta força que faria golias parecer um recém saído do maternal. O ponteiro encontra seu ponto dormente, a besta cuspiu cada labareda de fogo guardada na garganta, cheguei ao limite, domei a máquina. Senti pela ultima vez a sensação de por alguns segundos domar o monstro, domar o Demônio carburado, domar meus demônios. O último por do sol, o último cowboy, a última  besta urrante. Bestas não gostam de ser desafiadas por meninos, meninos são apenas fantoches encantados com seus bibelos eletrônicos. Bestas gostam de velhos estradeiros,  velhos cowboys, cabeças dura, teimosos, fundidos no aço e couro, porque não há nada como o barulho do aço retorcido e o cheio de couro queimado e o último sorriso sínico nos lábios.

 

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